O Hospital Estadual do Centro-Norte Goiano (HCN), em Uruaçu, tornou-se nos últimos anos a principal referência pública de média e alta complexidade para dezenas de municípios da região.
É uma unidade moderna, bem equipada e que trouxe para o Centro-Norte do Estado serviços e profissionais especializados, antes não disponíveis na região.
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O reconhecimento da importância do hospital, porém, não elimina um problema que se agravou nos últimos meses: a superlotação.
Nossa reportagem encaminhou ao HCN um pedido de informações com 19 questionamentos que, para serem respondidos, precisaram passar pelo crivo da Secretaria de Estado da Saúde (SES). As respostas vieram numa nota de dez páginas.
Os dados fornecidos mostram que uma média de 55 pacientes permanece diariamente no pronto-socorro aguardando leito de internação. O hospital informa que o setor dispõe de 34 “pontos de cuidado”, 21 a menos do que a demanda.
Com o setor superlotado, os 38% de pacientes que “sobram” são acomodados em macas, poltronas e cadeiras, inclusive nos corredores. O tempo de espera por um leito, segundo o HCN, varia geralmente entre 24 e 48 horas.
Superlotação virou rotina
A própria resposta do HCN indica que a pressão sobre o pronto-socorro não ocorre apenas em momentos excepcionais. O hospital classifica a ocupação do setor em níveis.
O nível 2, laranja, ocorre quando a quantidade de pacientes ultrapassa a capacidade regular. O nível 3, vermelho, quando a ocupação supera 120%. Os níveis laranja ou vermelho foram acionados durante todos os meses de 2025 e 2026.
O quadro é reforçado pelas taxas de ocupação do hospital. Em 2026, elas permaneceram acima de 90% em todos os meses informados e chegaram próximas de 95%.
O contrato é cumprido, mas a fila é permanente.
O HCN é público, pertence ao Estado de Goiás e integra o SUS. Sua administração é executada pelo Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (IMED), organização social contratada pela Secretaria de Estado da Saúde.
O modelo não é incomum no Brasil. Hospitais públicos de diversos estados são administrados por organizações sociais mediante contratos que estabelecem recursos, serviços, metas de produção e indicadores de desempenho.
No caso do HCN, o custeio ordinário atual gira em torno de R$ 19,4 milhões mensais. O sexto aditivo ao contrato de gestão prevê aproximadamente R$ 701,9 milhões para mais 36 meses de operação.
A análise do contrato e dos relatórios do hospital revela um paradoxo: os principais indicadores relacionados à utilização dos leitos vêm sendo cumpridos, enquanto a superlotação permanece.
A taxa de ocupação atende à meta. A permanência média está dentro do limite estabelecido. O giro dos leitos também. O intervalo entre a saída de um paciente e a ocupação da cama pelo próximo permanece abaixo do máximo contratado.
Mesmo assim, 55 pessoas aguardam, em média, entre um e dois dias por uma internação.
O problema não está necessariamente nos indicadores existentes. Eles medem aquilo para o qual foram criados. A deficiência está no que não medem.
Meta de ocupação parte de 90%
Um dos indicadores do contrato estabelece que a taxa de ocupação hospitalar deve ser igual ou superior a 90%. A lógica é evitar que o Estado financie uma estrutura que permaneça ociosa por problemas de gestão. Isso é razoável.
O problema é que a regra funciona em apenas uma direção. Não existe, nesse indicador, uma faixa superior de saturação que obrigue a adoção de medidas extraordinárias.
Essa ausência merece revisão, especialmente em um hospital que atende urgências e emergências e recebe pacientes encaminhados pela Regulação Estadual mesmo quando não dispõe de capacidade imediata.
Hospitais desse perfil precisam de alguma margem para absorver demanda imprevisível. Quando a ocupação permanece sistematicamente próxima da capacidade máxima, qualquer aumento de procura se transforma em fila no pronto-socorro.
Estado continua encaminhando pacientes
O HCN é referência para pelo menos 60 municípios e recebe pacientes regulados pela Secretaria de Estado da Saúde.
Em situações graves, ocorre a chamada “vaga zero”: o encaminhamento é autorizado mesmo sem aceite prévio da unidade. O hospital informou 5.692 registros assim de janeiro a junho, média de 948 por mês.
O volume ajuda a demonstrar a pressão exercida pela rede estadual sobre uma unidade que já opera com elevada ocupação. Nesse ponto, a responsabilidade extrapola a administração interna do HCN.
Se todos os 277 leitos estão operacionais e a Regulação continua encaminhando pacientes inclusive em situações de vaga zero, cabe à SES-GO avaliar se a capacidade contratada ainda é suficiente.
Quase sete horas para transformar alta em leito disponível
Há também um importante gargalo na saída. O HCN monitora o intervalo entre o registro da alta médica e a saída física do paciente. No primeiro semestre, a média foi de 6 horas e 48 minutos. Em janeiro, chegou a 7h43.
Isso significa que, mesmo depois de o paciente estar clinicamente liberado, o leito permanece ocupado durante aproximadamente seis ou sete horas, em média.
O hospital relaciona diferentes causas para essa demora: espera por transporte do município de origem, chegada de familiares, necessidade de oxigênio ou equipamentos domiciliares, articulação com serviços municipais, hemodiálise e situações sociais.
São razões legítimas em muitos casos. O HCN, entretanto, não informou quanto desse intervalo decorre desses fatores externos e quanto está relacionado a etapas internas, como prescrição, documentação, orientações e finalização dos procedimentos da alta.
Esse dado precisa ser analisado porque, em um hospital superlotado, uma hora poupada na liberação de centenas de leitos, ao longo do mês, significa aumento efetivo da disponibilidade de acomodação sem necessidade de construção de novas enfermarias.
Estrutura de alta tem apenas quatro poltronas
O contrato prevê um “Escritório de Gestão de Alta” para auxiliar na desospitalização e liberar mais rapidamente os leitos. Na prática, segundo o próprio HCN, o espaço funciona das 7h às 18h, conta com uma auxiliar administrativa e possui quatro poltronas para pacientes que já receberam alta e aguardam transporte confirmado.
A capacidade declarada é de cerca de 80 pacientes por mês. A estrutura parece pequena diante do porte do hospital e do tempo médio de seis a sete horas entre a alta e a saída física.
Há espaço para uma solução relativamente simples: ampliar a área de transição para receber pacientes clinicamente liberados que não precisam mais permanecer em uma cama de enfermaria.
Nem todos poderiam ser transferidos para esse ambiente. Alguns ainda necessitam de cuidados de enfermagem, oxigênio, medicamentos ou outras assistências.
Mas pacientes estáveis que esperam apenas familiares ou transporte poderiam permanecer em estrutura mais simples, com poltronas reclináveis, banheiros adequados e suporte assistencial.
Internação eletiva também precisa ser revista
Outro ponto que merece atenção é a convocação de pacientes para internações eletivas. Uma emergência não pode esperar, mas uma internação programada permite maior organização.
Em períodos de superlotação, pacientes clinicamente estáveis e que residem próximos ao hospital poderiam, em situações previamente definidas por protocolo médico, permanecer em casa até a confirmação da disponibilidade necessária para o início da internação.
O HCN informa que seus procedimentos eletivos são agendados previamente e que a internação depende de autorização da Regulação Estadual, avaliação médica, Núcleo Interno de Regulação e equipe de agendamento.
A resposta não esclareceu, porém, se a convocação ocorre apenas quando leito, estrutura e procedimento estão efetivamente disponíveis.
Em uma unidade saturada, essa programação deve ser suficientemente precisa para evitar a presença antecipada de pacientes que ainda não necessitam ocupar a estrutura física hospitalar.
O hospital precisa de mais leitos?
É uma pergunta que o Governo de Goiás precisa responder. A história do HCN registra diferentes números de capacidade anunciada ao longo dos anos.
Atualmente são 277 leitos contratados e operacionais. Em fevereiro de 2023, porém, o próprio Governo de Goiás divulgou oficialmente o hospital como uma unidade com 300 leitos.
Mais importante do que discutir a divergência histórica é verificar se 277 ainda são suficientes para absorver com dignidade toda a demanda direcionada à unidade.
Os próprios dados do HCN indicam que não. Mas isso não significa necessariamente que a única solução seja construir novos leitos.
Parte da pressão pode ser reduzida com melhoria dos processos de alta, expansão dos espaços de transição, melhor programação das internações eletivas, transporte municipal mais eficiente, fortalecimento de hospitais de retaguarda e redistribuição de pacientes pela Regulação Estadual.
Mas, se mesmo depois dessas medidas o pronto-socorro continuar mantendo dezenas de pessoas esperando 24 ou 48 horas por uma cama, a ampliação física precisa entrar na discussão.
Indicadores precisam medir também a superlotação
O contrato de gestão atual possui indicadores relevantes de produtividade, eficiência e qualidade. O problema é que eles não são suficientes para avaliar a atual crise.
Por exemplo, não há entre os principais indicadores contratuais uma meta específica para:
a) tempo entre internação e efetivo acesso ao leito;
b) tempo entre acesso ao leito e início efetivo do atendimento;
c) quantidade de pacientes aguardando em macas, poltronas ou áreas provisórias;
d) tempo entre alta médica e saída física;
e) pacientes mantidos após a alta por falta de transporte;
f) ocupação máxima diária por especialidade;
Alguns desses dados já são monitorados internamente pelo próprio HCN.
O tempo entre alta e saída física é um exemplo. Os gestores sabem que, na média de janeiro, um paciente com alta demorou quase “oito” horas pra desocupar a cama.
Indicadores como esses, com metas, transparência e mecanismos de correção, permitiria que o contrato avaliasse não apenas quantos pacientes são atendidos, mas também em que condições eles aguardam esse atendimento.
Responsabilidade é compartilhada: IMED, Governo de Goiás e municípios
A crise não pode ser atribuída exclusivamente ao IMED. A eles, cabe melhorar aquilo que está sob sua governabilidade: fluxos internos, programação de altas, internações eletivas, utilização dos espaços e gestão dos leitos.
Ao Governo, pela Secretaria de Estado da Saúde, cabe uma responsabilidade sistêmica: definir a capacidade contratada, regular os pacientes, financiar ampliações, estabelecer os indicadores e garantir uma rede regional capaz de dividir a demanda.
Já aos municípios cabe agilizar a retirada dos pacientes, que dependem de transporte depois da alta, e garantir a continuidade do atendimento em suas redes locais.
Os números divulgados pelo HCN mostram que o hospital está trabalhando perto do limite de sua capacidade. E mostram também que cumprir as atuais metas contratuais não foi suficiente para impedir a formação de uma fila média de 55 pacientes aguardando leito.
A superlotação exige, portanto, mais do que administrar melhor a crise. Exige rever processos, capacidade e, principalmente, os critérios utilizados pelo Estado para definir quando um hospital está funcionando bem.
O que está sendo feito?
Na resposta encaminhada à reportagem, o HCN afirma que já adotou ou está desenvolvendo uma série de medidas para enfrentar a superlotação.
Entre elas estão a gestão diária mais intensiva dos leitos, identificação antecipada das altas, fortalecimento do Escritório de Gestão de Alta, monitoramento do tempo entre a alta médica e a saída física do paciente, priorização de exames e procedimentos que condicionam a alta e comunicação antecipada com familiares e municípios.
O hospital também informa estar revendo os fluxos de convocação para internações eletivas e a programação cirúrgica, analisando os picos de ocupação por setor, ampliando o uso de espaços de transição e revisando os planos de contingência.
A lista inclui ainda maior articulação com o Governo, a Central de Regulação e os municípios responsáveis pela continuidade do atendimento depois da alta.
São providências coerentes com os gargalos apontados nesta reportagem. Algumas, inclusive, atacam diretamente problemas que os próprios números do HCN agora evidenciam: pacientes esperando de 24 a 48 horas por internação, média próxima de sete horas entre a alta médica e a desocupação efetiva do leito e pronto-socorro operando reiteradamente em níveis elevados do Plano de Capacidade Plena (PCP).
O próprio HCN informa que o pronto-socorro esteve nos níveis 2 ou 3 do PCP em todos os meses de 2025 e 2026. O problema, portanto, já se manifesta de forma recorrente há pelo menos um ano e meio.
Quando essas medidas começaram a ser adotadas e por que, até agora, não foram suficientes para impedir que a superlotação se tornasse rotina? Por que não ganharam prioridade a tempo de evitar tanto sofrimento?
