31 de março de 2026

Césio-137 em Goiânia: relatos inéditos de quem atuou na tragédia vêm à tona

Histórias revelam bastidores da atuação em áreas contaminadas e o impacto do caso em Goiânia

Por: Valdir Justino

Texto: Fabricio Moretti

Publicada em 31 de março de 2026 às 12:37
 Imagem: Foto Reprodução - Imagem: Ilustrativa/IA

A tragédia do Césio-137 em Goiânia voltou ao centro do debate recentemente após o lançamento da minissérie da Netflix “Emergência Radioativa”. Diante da repercussão, foram divulgados relatos inéditos de profissionais que atuaram diretamente no maior acidente radiológico do Brasil. As memórias vêm sendo resgatadas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

A iniciativa da CNEN reúne depoimentos de técnicos e especialistas que participaram das ações emergenciais em 1987, quando o contato com o material radioativo causou a morte de quatro pessoas e deixou centenas de contaminados em Goiânia. Os relatos revelam bastidores pouco conhecidos da atuação no desastre.

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Acidente radioativo mais grave da história do Brasil começou com o manuseio indevido de um aparelho de radioterapia (Foto: SES)

Área contaminada de césio
O físico Roberto Vicente, técnico da CNEN, relembra a intensidade do trabalho durante a crise provocada pelo Césio-137. Segundo ele, as equipes atuavam desde o planejamento das intervenções em áreas contaminadas até tarefas operacionais mais pesadas.

“As atividades iam desde planejar a intervenção em uma área contaminada até executar o trabalho mais difícil. Muitos trabalhadores não eram da área nuclear, mas se sentiam confiantes quando atuávamos juntos”, afirmou.

Roberto Vicente relata ter trabalhado em locais emblemáticos da contaminação em Goiânia, como a Rua 57, onde ficava a casa do catador Roberto Santos Alves — o primeiro ponto de contato com o material radioativo. Foi nesse local que a cápsula retirada de um aparelho de radioterapia, encontrada no antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), acabou sendo aberta.

Foto: Reprodução Alego

Outro ponto citado foi o ferro-velho para onde a peça contendo Césio-137 foi levada, ampliando a exposição e agravando a dimensão da tragédia.

Desafios em Goiânia
Segundo o físico, um dos maiores desafios enfrentados pelas equipes era lidar com níveis extremamente elevados de radiação. Em algumas áreas, o tempo de permanência precisava ser de apenas alguns segundos.

“Em certos locais, tínhamos que entrar e sair rapidamente para evitar doses altas de radiação. Caso contrário, seríamos afastados em pouco tempo”, explicou.

Apesar dos riscos, ele lembra que havia também momentos de interação com os moradores. Após a vistoria das casas, era comum que a população oferecesse comida às equipes como forma de confirmar que o ambiente estava seguro.

Foto: Arquivo – Governo de Goiás

Leide das Neves
Outro relato divulgado pela CNEN é o da física Valéria Pastura, que atuou no atendimento às vítimas da contaminação no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Entre os pacientes estava Leide das Neves, uma das vítimas fatais mais emblemáticas da tragédia do Césio-137 em Goiânia, que tinha apenas 6 anos.

Valéria recorda que o atendimento aos radioacidentados exigia o uso constante de equipamentos de proteção, como toucas, máscaras e óculos. Ela trabalhou no hospital entre setembro e dezembro de 1987.

“A gente tinha o nosso lado humano, sim. Tomávamos todas as precauções, até porque muitos já não tinham mais contaminação, mas sim irradiação”, relatou.

Ao relembrar o período, a especialista destaca o impacto emocional deixado pela experiência. “As lembranças são doloridas”, completou.

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