O Brasil enfrenta um cenário alarmante de queimadas que ameaça tanto a saúde da população quanto a estabilidade dos ecossistemas. De acordo com dados do MapBiomas, somente em 2024 foram destruídos mais de 300 mil quilômetros quadrados de vegetação — uma área equivalente à Itália —, um aumento de 80% em relação ao ano anterior. Na Amazônia, a devastação atingiu níveis históricos: 156 mil quilômetros quadrados queimados, a maior perda em quatro décadas, superando toda a área da Grécia. Especialistas apontam que as principais causas estão ligadas à ação humana, ao agravamento da seca e à influência do fenômeno El Niño.
O impacto sobre a saúde pública é grave e imediato. A epidemiologista Ubirani Otero, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), destaca que a fumaça das queimadas contém substâncias cancerígenas cujo efeito pode surgir décadas depois. “A prevenção começa na eliminação da exposição. A fumaça é invisivelmente tóxica”, afirma. Pesquisas da Universidade de São Paulo e da Fiocruz reforçam o alerta: partículas finas inaladas provocam inflamação, estresse oxidativo e até lesão no DNA, aumentando o risco de câncer, agravando asma e bronquite e elevando em até 36% as internações infantis por problemas respiratórios em períodos críticos.
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O médico Paulo Saldiva, referência em poluição atmosférica, explica que a inflamação causada pelo ar contaminado fragiliza o sistema imunológico, abrindo caminho para infecções e complicações cardíacas, além de afetar pacientes com diabetes. Já o presidente da Sociedade Médica de Oxigenoterapia Hiperbárica, José Branco, ressalta que a aproximação forçada de animais silvestres às áreas urbanas após incêndios favorece a propagação de doenças como a leishmaniose e outras zoonoses.
Do ponto de vista ambiental, o prejuízo é igualmente devastador. A destruição da vegetação compromete a evapotranspiração, processo essencial para a formação de chuvas e a regulação do clima. Segundo o biólogo Francisco Kelmo, da Universidade Federal da Bahia, a perda de plantas acelera o ressecamento do solo, fragmenta habitats e coloca em risco a fauna, resultando em desequilíbrios que podem levar décadas para serem reparados. Além disso, a liberação massiva de carbono intensifica o aquecimento global, criando um ciclo vicioso que torna novas queimadas ainda mais prováveis.
O avanço do fogo no Brasil revela uma crise que transcende fronteiras regionais. Seus efeitos afetam diretamente o ar que respiramos, a água que consumimos e a biodiversidade que sustenta a vida. Especialistas defendem ações urgentes de fiscalização, mudanças nas práticas agrícolas e políticas públicas robustas para conter um problema que, se mantido nesse ritmo, pode comprometer não apenas o presente, mas também o futuro ambiental e sanitário do país.