22 de julho de 2026

Espere sentado uma condenação do governo Lula ao golpista Ortega

O nicaraguense Daniel Ortega aboliu as eleições no seu país. Não que houvesse eleições limpas na Nicarágua antes de ele abolir as urnas

Por: Valdir Justino

Texto: Mario Sabino

Publicada em 22 de julho de 2026 às 14:41
 Presidência da Nicarágua/Cesar Perez/Handout via Reuters

O nicaraguense Daniel Ortega aboliu as eleições no seu país.

“Não haverá mais eleições aqui para que eles (os opositores) tentem tomar o governo e o poder. Os dias em que partidos apoiados pelos ianques e pelos somozistas voltavam ao poder acabaram. Nunca mais”, disse ele, com a cara mais limpa do mundo, na comemoração da Revolução Sandinista de 1979.

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Não que houvesse eleições limpas na Nicarágua antes de Daniel Ortega abolir as urnas. O seu método para vencer era semelhante ao de Nicolás Maduro: colocava a oposição na cadeia e fraudava na contagem de votos.

Não deixa de ser um clássico latino-americano, assim como Violeta Parra.

Antes de Ortega, foi a vez de o colombiano Gustavo Petro dar o ar da sua graça golpista. Ele não aceita a vitória do direitista Aberlado de la Espriella, embora todos os observadores internacionais tenham constatado a lisura do processo eleitoral. Comentei a história no início deste mês.

Como não canso de dizer, e espero que você não canse de ler, a esquerda é intrinsecamente golpista. A democracia sempre lhe foi valor estratégico, nunca universal.

Os esquerdistas dizem que não é mais assim e coisa e tal, que houve uma conversão quase religiosa à democracia. Na verdade, eles só deixaram de apor ao substantivo “democracia” o adjetivo “burguesa”, porque dava muita bandeira das suas reais intenções. Mas, quando estão no poder, ainda insistem em qualificar-se de “governo popular”, como se fossem os únicos representantes legítimos do povo.

Lula foi companheiro fraterno de todos esses golpistas da esquerda latino-americana, apoiava essa gente no atacado, e talvez o TSE proíba que isso seja dito pela oposição durante a campanha eleitoral, o que seria apenas outro ato de censura, e censura não cancela a realidade, apenas a ressalta.

No caso de Daniel Ortega, o chefão petista era tão amigo do sujeito, que, em 2021, em entrevista ao jornal espanhol El País, comparou o golpista nicaraguense (e também o golpista Nicolás Maduro) à ex-chanceler alemã Angela Merkel, à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e ao ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González.

”Posso ser contra (a reeleição de Daniel Ortega), mas não posso interferir nas decisões de um povo. Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder, e Daniel Ortega não? Por que Margaret Thatcher pôde ficar 12 anos no poder, e Chávez não? Por que Felipe González pôde ficar 14 anos no poder?”, teve coragem de dizer o chefão petista.

De lá para cá, a amizade esfriou, Lula tomou distância higiênica, chegou a ser acusado por Ortega de ser “puxa-saco de ianques’, mas nunca houve rompimento formal entre ambos. Muito convenientemente, Lula sempre prega “moderação” no trato com ditadores do seu espectro ideológico.

Conversa mole. Para a esquerda, golpe de esquerda é sempre decisão do povo. Espere sentado uma condenação do governo Lula à fala delinquente do companheiro Daniel Ortega.

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