Constranger jornalista é “coisa de ditador”, afirma Malu Gaspar
Comunicadora fez duras críticas à postura do STF no caso do jornalista Luís Pablo
A jornalista Malu Gaspar publicou nesta sexta-feira (14), no jornal O Globo, uma coluna em que critica a postura do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar uma operação da Polícia Federal (PF) contra o ex-secretário de Segurança do Maranhão Raimundo Cutrim, apontado como fonte do jornalista Luís Pablo, que denunciou o uso de veículos oficiais pela família do ministro Flávio Dino.
Para Malu, a medida representa uma ameaça ao sigilo da fonte, garantia constitucional que, segundo ela, é essencial para o funcionamento do jornalismo investigativo. A colunista lembra que grandes casos revelados pela imprensa dependeram de fontes que só aceitaram colaborar porque tiveram a identidade protegida.
– Do mensalão ao petrolão, da Vaza-Jato à rachadinha de Flávio Bolsonaro ou às fraudes do Banco Master, todos esses casos fundamentais para a depuração das nossas instituições só andaram graças a fontes que nunca teriam colaborado se fossem obrigadas a se identificar. De tão central para o fortalecimento da democracia, o sigilo da fonte é garantido na Constituição como cláusula pétrea – ressalta.
No texto, Gaspar ressalta que Luís recebeu informações de interesse público e as publicou, o que não constitui, por si só, crime. Na avaliação de Malu, a busca realizada contra Luís Pablo tem “cara, jeito e cheiro de pesca probatória”.
A colunista também menciona a suspeita de que Luís Pablo teria recebido R$ 100 mil de um advogado. As mensagens encontradas tratariam o valor como um empréstimo, embora a investigação tenha levantado a hipótese de pagamento pelas reportagens, o que o jornalista nega. Para Malu, mesmo que um profissional recebesse dinheiro por uma publicação, isso também não caracterizaria uma conduta criminosa.
A jornalista também questiona por qual razão o caso tramita no Supremo e faz uma comparação com outros episódios envolvendo sites e veículos acusados de receber pagamentos para publicar conteúdos de interesse de terceiros e que não foram alvos de postura veemente da Suprema Corte.
No trecho mais contundente da coluna, Malu alerta para o efeito que uma eventual flexibilização do sigilo da fonte poderia produzir sobre a imprensa e diz que ações que resultam em constrangimento a jornalistas em suas atuações profissionais seriam “coisa de ditador”.
– Se todo juiz deste país puder quebrar o sigilo da fonte de um jornalista que divulgou algo incômodo, ficará impossível fiscalizar a ação das autoridades, premissa básica do sistema democrático. Constranger um jornalista a não exercer sua profissão por medo de ser preso é coisa de ditador – escreveu.
Ao final, a colunista diz que o STF deveria ter “vergonha” do precedente aberto com as ações tomadas contra Luís e sua fonte.
– Os ministros do Supremo deveriam ter vergonha do precedente aberto nesse caso, ainda mais quando se apresentam à opinião pública como heróis que salvaram nossa democracia – finalizou.
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